Quer melhorar a sua saúde intestinal? Pratique exercícios!


Praticar exercícios físicos é uma das primeiras recomendações feitas àqueles que querem emagrecer, ganhar massa muscular, prevenir doenças crônicas, dormir melhor… ser mais saudável de uma forma geral. A prática regular de exercícios físicos, associada a escolhas alimentares mais saudáveis, manejo do estresse, redução do consumo de álcool e exclusão do hábito de fumar, é realmente um ingrediente essencial na fórmula da saúde. E uma das maneiras pelas quais o exercício atua na melhora do funcionamento do organismo é a partir do efeito que ele exerce no intestino, visto que a saúde intestinal é um pilar fundamental para a homeostase orgânica e qualidade de vida.


O eixo intestino - cérebro, ou seja, a “comunicação” que existe entre esses dois órgãos já é bem conhecida. Dizer que existe uma conversa entre o intestino e o cérebro significa dizer que o estado de um é capaz de influenciar o funcionamento do outro: se o intestino possui suas estruturas íntegras, funciona com eficiência, está livre de inflamações e cumpre bem suas funções, isso impacta diretamente a qualidade do funcionamento do cérebro, que consegue fazer todas as transmissões de informações entre neurônios e produção de substâncias de forma adequada, refletindo em um bom funcionamento cognitivo e saúde mental. E vice - versa.


E esse mesmo tipo de conversa existe entre o intestino e os músculos. Tendo em vista que durante o exercício físico trabalhamos com a musculatura esquelética, gerando estímulos para adaptações, esse impacto também pode afetar a saúde do intestino, e mais ainda: a composição e funcionalidade dos microrganismos que o habitam.


A prática regular de atividade física moderada, em quantidade suficiente (aproximadamente 150 minutos/semana, de acordo com a OMS) parece exercer efeito benéfico na microbiota, estando associada ao aumento da diversidade de espécies e abundância daquelas que possuem uma repercussão metabólica positiva, possibilitando inclusive a modulação de processos patogênicos que tem influência da inflamação. Isso explica a recomendação que citei no início do texto: o exercício como uma das principais modificações de estilo de vida para quem busca mais saúde.


Mas o que explica essa repercussão positiva? Devemos lembrar que a microbiota intestinal possui uma relação bem próxima com o sistema imune, devido à presença elevada de estruturas e células desse sistema no intestino e o fato de que, quando há disbiose, promove-se uma resposta de inflamação sistêmica a partir da estimulação das células imunológicas. A contração da musculatura que acontece durante o exercício, estimula a liberação de uma substância conhecida como IL-6, que inibe a produção de TNF (de natureza inflamatória) e estimula a liberação de citocinas anti inflamatórias como a IL-1ra e IL-10, produzindo um estado de inibição da inflamação no organismo. Além disso, o exercício também tem efeito positivo sobre o fortalecimento da estrutura de barreira do intestino, que protege contra a entrada de substâncias tóxicas e bactérias patogênicas na corrente sanguínea. O favorecimento de um estado mais anti inflamatório tem uma repercussão muito positiva na saúde intestinal e na composição dos seus microrganismos. Parece, inclusive, haver um aumento nas bactérias que produzem ácidos graxos de cadeia curta, outra substância com potencial anti inflamação.


Mas três fatores merecem atenção: o volume, intensidade e regularidade do exercício. Se a prática de exercícios for muito intensa e em volumes muito elevados para a capacidade individual, pode gerar danos nas estruturas de proteção do intestino e nos seus microrganismos. Isso porque, durante o exercício, muito sangue é desviado para a musculatura e a falta de suprimento sanguíneo no intestino prejudica seu equilíbrio. Apesar disso, a prática dentro dos limites individuais deve ser regular: praticar exercícios apenas de forma eventual não é capaz de gerar as adaptações necessárias para a saúde intestinal. Dessa forma, a mensagem que fica é: pratique exercícios regularmente, de acordo com sua capacidade física e, aliado à uma alimentação mais saudável, aumente a saúde do seu intestino!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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