Qual a diferença entre alergia, sensibilidade e intolerância?



Diversas pessoas podem apresentar sensação de desconforto ou mal estar após a ingestão de alguns alimentos. No entanto, essas reações podem ser advindas de uma possível sensibilidade, alergia ou intolerância alimentar, que deve ser investigada pois elas apresentam sintomas muito semelhantes. Devido a isso, essas doenças fazem parte das reações adversas ao alimento (RAAs), visto que podem prejudicar de forma significativa a saúde intestinal e sistêmica do indivíduo.

A alergia alimentar se refere a uma reação exacerbada do sistema imunológico, frente a presença de algum alimento ou componente alimentar como proteínas e glicoproteínas (proteína ligada a uma cadeia de carboidratos), promovendo a liberação de mediadores inflamatórios e químicos que atuam no organismo como um todo desencadeando sintomas muito incômodos e perigosos ao paciente, pois eles não possuem nenhuma tolerância ao elemento. Os antígenos são responsáveis por induzir as respostas imunes no organismo e quando eles estimulam uma resposta alérgica, eles passam a ser chamados de alérgenos.

As alergias alimentares em sua grande maioria podem estimular a síntese de IgE específicas, liberar mediadores inflamatórios em resposta das IgE produzidas contra agentes não alimentares e ocasionar enteropatias e outras doenças com resposta imunológica. Após o contato do sistema imune com o alérgeno, ele irá promover a liberação de histamina, anticorpos e IgE para combater o elemento causador da alergia.

Os principais alimentos alérgenos nos adultos e crianças são as frutas secas, frutos do mar, amendoim, peixe, trigo, leite, ovo, amendoim, glúten e soja. Em relação aos componentes industrializados os mais significativos para as alergias incluem sulfitos, glutamato monossódico e corante tartazina, que são muito usados na preparação de frutas desidratadas, temperos prontos e sucos artificiais.

Os casos de sensibilidade alimentar já foram classificados como uma alergia retardada, isso porque em algumas situações não está elucidado se a reação do paciente ao alérgeno está associada a uma resposta imunológica, fisiológica ou bioquímica. A sensibilidade ocorre comumente após 45 minutos há 72 horas depois do contato. As reações de sensibilidade são mediadas principalmente por anticorpos do tipo IgG e IgM, no qual o IgG atua na defesa do organismo contra alérgenos e patógenos e está associado a reações de sensibilidade não mediadas por IgE.

A sensibilidade alimentar é a mais frequente das RAAs na população, acometendo cerca de 2 milhões de pessoas por ano no Brasil. Os alimentos como ovo, leite, glúten, peixes, crustáceos, oleaginosas e soja são responsáveis por 89% desses casos.

Já a intolerância alimentar ocorre no trato gastrointestinal do paciente, através de uma reação adversa a um elemento alimentar que não está relacionado com resposta imunológica nem mediada por anticorpos. Sendo ocasionada principalmente por incapacidade na digestão, absorção ou metabolismo do componente em questão. Se pegarmos como exemplo a intolerância à lactose, o paciente não apresenta alergia à proteína do leite de vaca, mas incapacidade de digerir o carboidrato do leite, a lactose.

A maior parte das intolerâncias alimentares possuem relação genética e ocorrem desde a infância. Porém, o consumo exacerbado de alimentos como ovo, marisco, camarão, tomate, espinafre, nozes, banana, couve-flor, chocolates e pimenta são significativos para elevar as chances de intolerância, pois parecem ter relação com alterações intestinais que levam a redução da capacidade digestiva de alguns elementos, e podem ser gatilhos para os quadros de intolerâncias transitórias.


Referências

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