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Eixo fígado-intestino: a importância para o processo de destoxificação


Com o avanço dos estudos acerca dos microrganismos que habitam o trato gastrointestinal, conhecidos, em conjunto, como microbiota intestinal, ficou quase que intuitivo associar o desequilíbrio na composição e função dessas bactérias e fungos ao surgimento de doenças que acometem o intestino, como as doenças inflamatórias intestinais, síndrome do intestino irritável e etc. Mas não podemos nos esquecer que a influência desses microrganismos ultrapassa o ambiente intestinal, e muito disso se deve ao fato da existência de eixos bidirecionais entre o intestino e outros órgãos do nosso organismo.


Um exemplo muito conhecido é o eixo intestino - cérebro: devido à conexão entre essas duas regiões do nosso corpo, que se dá através da sinalização nervosa e química, o desequilíbrio intestinal, especialmente da composição dos microrganismos que habitam ali, pode afetar a função ótima do cérebro (prejudicando processos cognitivos e emocionais), e vice-versa: um ambiente cerebral inflamado também pode ter efeito negativo sobre o estado adequado do intestino. Outro eixo importantíssimo, e menos conhecido, é o eixo fígado-intestino, que desenha o caminho a partir do qual a disbiose intestinal pode contribuir para o surgimento de doenças hepáticas e atrapalhar o funcionamento adequado do fígado - assim como, no sentido inverso, uma disfunção hepática pode comprometer a saúde do intestino.


O aumento da permeabilidade intestinal, característica marcante de casos de disbiose, gera o aumento da circulação de PAMPS (padrões moleculares associados a patógenos), como o LPS. Esses compostos são capazes de ativar a produção de citocinas pró-inflamatórias, aumentando o risco de danos hepáticos. Além disso, algumas bactérias são capazes de, a partir de certos tipos de carboidrato, produzir etanol, um composto que exerce efeito tóxico direto nos hepatócitos, as células que compõem o tecido hepático.


Uma das mais importantes funções do fígado é realizar o processo de destoxificação, que consiste em eliminar as substâncias potencialmente tóxicas do nosso organismo, como xenobióticos advindos da poluição do ar, da água, da comida (agrotóxicos!) e até mesmo do excesso de medicamentos. Essas substâncias geralmente tem uma característica lipofílica, ou seja, têm baixa afinidade com a água e alta afinidade com a gordura e, dessa forma, não são facilmente excretadas pelos sistemas de excreção do corpo (suor, urina e fezes).


A detoxificação é um processo que envolve um complexo de enzimas, que estão presentes principalmente no fígado, mas também no intestino, e atuam de forma a deixar essas substâncias em um estado que se dissolvam melhor na água e assim possam ser mais facilmente excretadas pelos caminhos existentes para tal. Esse processo natural de detox que nosso corpo realiza pode ser, de maneira simplificada, dividido em duas grandes fases.


Primeiramente, acontece a biotransformação e ativação da substância que deve ser excretada, a partir da atuação de enzimas da superfamília citocromo P450, a primeira defesa do nosso corpo contra xenobióticos. De forma geral, o que essas enzimas fazem é adicionar um grupo reativo à substância a ser eliminada para que ela possa passar para a próxima fase. No segundo momento, o grupo reativo é conjugado com uma substância hidrofílica, o que aumenta a probabilidade deste composto ser excretado pelas vias normais.


Se há qualquer tipo de dano hepático, antes mesmo da progressão para uma doença característica desse órgão, como a doença hepática gordurosa não alcoólica, por exemplo, a função de detoxificação fica comprometida, proporcionalmente ao tamanho do dano existente. Sem esse processo, aumenta o acúmulo de substâncias potencialmente tóxicas causando prejuízos para o funcionamento de todos os órgãos e ainda podem estar associadas ao surgimento de mutações com possível progressão para tumores.


Cuidar das suas bactérias intestinais vai muito além de cuidar da saúde do seu intestino: influencia a saúde de todo o seu corpo!



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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