Como a nossa microbiota envelhece?


A microbiota intestinal muda de acordo com o processo de envelhecimento. A composição e a abundância da microbiota individual podem variar bastante de acordo com o passar dos anos. Embora a maioria dessas mudanças parecem ser inofensivas, uma grande mudança em sua composição no intestino (disbiose) pode desencadear danos locais e inflamação sistêmica.


A disbiose pode ser apontada como uma causa primária de morbidades associadas ao envelhecimento e, portanto, pode reduzir a sobrevida em idosos. O desequilíbrio da microbiota intestinal desencadeia uma série de eventos patológicos e inflamatórios. Os exemplos incluem o aumento da permeabilidade intestinal e desequilíbrios dos sistemas gastrointestinal e imune. Portanto, devido ao aumento da inflamação sistêmica, pode resultar em consequentes patologias associadas ao envelhecimento.


A composição da microbiota intestinal de idosos possui diferenças significativas quando comparada à microbiota de jovens e adultos. Esta mudança coincide com a redução da atividade do sistema imune e a manifestação de patologias associadas ao envelhecimento. A diminuição de microrganismos benéficos, particularmente envolvidos com a produção de mucinas é associada a uma cadeia de eventos inflamatórios e consequentes alterações metabólicas.

Diante deste fato, o padrão alimentar e o estilo de vida, podem auxiliar diretamente nos impactos desencadeados pelas alterações fisiológicas da composição da microbiota em humanos.


Microbiota do idoso

O lúmen e a camada de mucina de jovens adultos são colonizados por uma população diversificada de microrganismos comensais que coexistem com o hospedeiro de forma simbiótica. Membros do filo Verrucomicrobia, particularmente Akkermansia muciniphila, apoiam a integridade da barreira intestinal e, assim, evitam a permeabilidade intestinal e consequentemente a indução da inflamação.


Em contrapartida, em pessoas idosas, a composição dos comensais intestinais é alterada e a diversidade microbiana é reduzida devido ao acúmulo de comensais potencialmente pró-inflamatórios e diminuição de microrganismos benéficos, como os membros da Verrucomicrobia. Portanto, devido ao aumento da permeabilidade intestinal favorece um quadro de inflamação sistêmica que facilita as morbidades associadas ao envelhecimento e a diminuição da sobrevida deste público.


Sobrevida e microbiota

Um estudo realizado com mais de nove mil indivíduos entre 18 e 101 anos, mostrou que a composição da microbiota intestinal varia de forma significativa ao longo dos anos. A análise de metabólitos microbianos provenientes da fermentação de fenilalanina e tirosina (p-cresol sulfato, fenilacetilglutamina, p-cresol glicuronídeo) foi significativamente maior no público idoso. Este achado pode contribuir para o declínio associado à idade nesta população.


Outros metabólitos da fermentação bacteriana estudados foram os indóis, provenientes do triptofano. Um dos mecanismos de ação mais reconhecidos dos metabólitos indólicos é a mediação da inflamação através da ligação do receptor de hidrocarboneto, caracterizando regulação imunológica. Diante disso, a função imunomoduladora dos metabólitos do triptofano podem estar associadas a um envelhecimento saudável.


Por fim, a diminuição de bacterioidetes conforme a idade foi associada com a diminuição da sobrevida de 4 anos em idosos. Sendo assim, é possível afirmar que a composição do microbioma está diretamente associada ao envelhecimento saudável.


Referência bibliográficas

Wilmanski T, Diener C, Rappaport N, et al. Gut microbiome pattern reflects healthy ageing and predicts survival in humans [published correction appears in Nat Metab. 2021 Apr;3(4):586]. Nat Metab. 2021;3(2):274-286. doi:10.1038/s42255-021-00348-0

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