Como a microbiota pode afetar o desempenho da atividade física?



A fermentação de fibras alimentares realizada pela microbiota intestinal saudável produz ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) – butirato, propianato e acetato são os principais - que exercem diversas funções, dentre elas: participam da síntese do muco responsável por proteger a mucosa intestinal; servem de energia para os enterócitos e controlam a síntese de proteínas que atuam nas ligações entre as células, fortalecendo assim a barreira intestinal; inibem a síntese de citocinas pró-inflamatórias; e participam do controle do gasto energético no sistema nervoso central.


Nessas condições, a microbiota intestinal fortalece o sistema imunológico, permite a absorção adequada de nutrientes e contribui para a captação de energia durante os treinos, o que é benéfico aos desportistas - especialmente durante os exercícios de alta intensidade.


O desequilíbrio da microbiota promove o rompimento das ligações entre as células do intestino e aumenta a permeabilidade intestinal. Isso gera uma inflamação local e sistêmica, prejudicando a recuperação muscular. Além disso, nesse estado, a microbiota prejudica a digestão dos alimentos e causa sintomas gastrointestinais que podem levar a uma redução na frequência dos treinos.


Uma microbiota saudável é capaz de:


- Metabolizar polifenóis, que exercem efeitos anti-inflamatórios, reduzindo o estresse oxidativo gerado pelo exercício físico.

- Sintetizar maior quantidade de AGCC. Estudos em animais sugerem que o aumento dessas substâncias está associado a melhor desempenho esportivo;

- Metabolizar o lactato produzido pelos músculos durante o exercício físico, favorecendo o desenvolvimento de bactérias que utilizam essa substância como fonte de energia;

- Minimizar os riscos de desconfortos intestinais, que podem reduzir a frequência e a performance esportiva.

- Minimizar os riscos de infecções do trato respiratório superior, que acometem atletas de diversas modalidades esportivas. A microbiota é capaz de induzir a síntese de imunoglobulinas que atuam protegendo as mucosas intestinal e respiratória. Esse fato foi confirmado por meio de pesquisas que verificaram a redução de infecções respiratórias em atletas que utilizaram a suplementação de probióticos.

- Sintetizar tirosina, que é essencial para a síntese de dopamina, liberada durante a atividade física. A redução dos níveis de dopamina prejudica a hipertrofia muscular.


A relação entre a microbiota e a prática de atividade física parece ser bidirecional. A microbiota está envolvida na síntese de nutrientes que não são produzidos pelo homem, mas são indispensáveis para a manutenção e recuperação da massa muscular. Por outro lado, a prática de atividade física regular tem capacidade de aumentar a diversidade da microbiota intestinal.


Outros fatores essenciais para manter a microbiota saudável e melhorar ou manter performance esportiva são: alimentação equilibrada e hidratação. Dessa forma, é possível manter a saúde e reduzir os riscos de doenças crônicas não transmissíveis, tais como: diabetes, hipertensão arterial e obesidade.


Se tiver interesse em ler mais sobre esse assunto, indico esses artigos:


Clark A, Mach N. Exercise-induced stress behavior, gut-microbiota-brain axis and diet: a systematic review for athletes. J Int Soc Sports Nutr. 2016 Nov 24;13:43. doi: 10.1186/s12970-016-0155-6. PMID: 27924137; PMCID: PMC5121944.


Donati Zeppa S, Agostini D, Gervasi M, Annibalini G, Amatori S, Ferrini F, Sisti D, Piccoli G, Barbieri E, Sestili P, Stocchi V. Mutual Interactions among Exercise, Sport Supplements and Microbiota. Nutrients. 2019 Dec 20;12(1):17. doi: 10.3390/nu12010017. PMID: 31861755; PMCID: PMC7019274.


Marttinen M, Ala-Jaakkola R, Laitila A, Lehtinen MJ. Gut Microbiota, Probiotics and Physical Performance in Athletes and Physically Active Individuals. Nutrients. 2020 Sep 25;12(10):2936. doi: 10.3390/nu12102936. PMID: 32992765; PMCID: PMC7599951.




Figura – Fonte: MATTINEN, 2020