Agrotóxicos do trigo podem estar relacionados à intolerância ao glúten?



A doença celíaca e a intolerância ao glúten são doenças que vêm aumentando a cada ano no mundo, atingindo cerca de 25 milhões de pessoas e 5% da população de alguns países da Europa e dos Estados Unidos. Nos países nórdicos a prevalência da doença é de 1:90 pessoas. Em relação às crianças, essas doenças aparecem logo após a ingestão de alimentos que contêm glúten.


O glúten é classificado como uma proteína de origem vegetal que está presente na aveia, centeio, cevada, malte e principalmente no trigo. O consumo desses alimentos é exacerbado em inúmeros países do mundo, pois são ingredientes que fazem parte de preparações muito comuns, tais como bolos, pães, waffle, pastéis, pizzas, cervejas e outras bebidas alcoólicas.


Por conta da grande demanda por esses ingredientes, a indústria utiliza agentes agrotóxicos para otimizar a produção deles. O mais amplamente usado em todo o mundo, principalmente no Brasil, é o glifosato [(N-fosfonometil) glicina] (GLY), que se trata de um herbicida não seletivo e de amplo espectro. A principal formulação comercial do GLY é o “Roundup”, que consiste em sal de isopropilamina, e o surfactante polioxietilenoamina também é adicionado de acordo com o fabricante para aumentar sua eficiência.


A OMS (organização mundial da saúde) considerou que o GLY é toxicologicamente inofensivo para utilização em humanos e meio ambiente, devido à sua fácil degradação por microorganismos do solo. No entanto, inúmeros estudos atualmente mencionam que esse herbicida pode desencadear processos de alergia e intolerâncias alimentares, além de ser potencialmente cancerígeno por conta do seu acúmulo na água do meio ambiente. Mas, em relação a isso, as ferramentas de diagnóstico do GLY e seus subprodutos na água ainda não são muito significativos.


A literatura já vem trazendo diversos dados sobre a relação do uso de glifosato e ocorrência de intolerância ao glúten, visto que ele é muito utilizado na sua produção. A doença celíaca e a intolerância ao glúten podem ser desencadeadas por alterações na composição da microbiota intestinal, e já existem evidências de que o GLY também promove esse desequilíbrio entre as bactérias da microbiota, que poderia desencadear esses distúrbios.


Além disso, estudos apontam que a quantidade de resíduos de glifosato no trigo e outros alimentos semelhantes aumentou muito nos últimos anos, por conta do método de dissecação dos alimentos feito antes da colheita. Ainda, os sintomas provocados em animais após a exposição ao GLY são correspondentes aos que são provocados pelas doenças celíaca e intolerância, ressaltando que o possível promotor da intolerância ao glúten pode não ser a própria proteína, mas os agrotóxicos presentes nele.


No Brasil esse herbicida pode ser adquirido facilmente por qualquer pessoa, por isso é utilizado em cerca de 90% das plantações de soja. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) realizou a publicação de uma lista com os principais alimentos que apresentaram agrotóxicos no país em 2018, sendo eles o pimentão (80%), uva (56,4%), pepino (54,8%), morango (50,8%), couve (44,2%), abacaxi (44,1%), mamão (38,8%), alface (38,4%), tomate (32,6%) e beterraba (32%).


Além disso, no que diz respeito ao glifolato a Anvisa considera esse agrotóxico na categoria 4 (pouco tóxico), no entanto, ela menciona que ele pode ser nocivo se ingerido, se entrar em contato com a pele e se for inalado. Ainda, de acordo com a IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer) o GLY é considerado um agente provavelmente carcinogênico para humanos.



Referências:

Valle, A. L., Mello, F. C. C., Alves-Balvedi, R. P., Rodrigues, L. P., & Goulart, L. R. (2018). Glyphosate detection: methods, needs and challenges. Environmental Chemistry Letters. doi:10.1007/s10311-018-0789-5

Samsel, A., & Seneff, S. (2013). Glyphosate, pathways to modern diseases II: Celiac sprue and gluten intolerance. Interdisciplinary Toxicology, 6(4), 159–184. doi:10.2478/intox-2013-0026

Labonte, M. E., Couture, P., Richard, C., Desroches, S., & Lamarche, B. (2013). Impact of dairy products on biomarkers of inflammation: a systematic review of randomized controlled nutritional intervention studies in overweight and obese adults. The American journal of clinical nutrition, 97(4), 706-717.