A creatina também pode ser um bom suplemento para o seu intestino


Creatina: um dos suplementos com maior respaldo científico acerca de seus benefícios para a performance no mundo da nutrição esportiva! Apesar disso, ainda é alvo de alguns olhares negativos e dúvidas sobre a sua segurança… Mas o objetivo aqui não é falar do uso esportivo da creatina ou explicar os mecanismos pelos quais não é preciso temer essa suplementação, porque, sim, é um suplemento seguro! Só deve ser evitado em casos de patologia renal preexistente, mas quando utilizado de forma adequada não causa nenhum tipo de dano renal ou hepático. Usos clínicos começaram a ser propostos para a creatina, como em pacientes com doenças neuromusculares, e hoje eu quero apresentar para vocês uma nova possibilidade no âmbito clínico: saúde intestinal.


A creatina é um dos mais abundantes compostos moleculares do corpo humano, o que revela sua importância para a nossa fisiologia e metabolismo. Pode ser obtida a partir da dieta (pois está presente em alimentos de origem animal) e suplementação, mas seu papel na homeostase do organismo é tão relevante que o próprio corpo também consegue produzir creatina na presença de arginina e glicina, dois aminoácidos que também são sintetizados pelo nosso corpo.


De forma simplificada, a creatina participa de um sistema celular que é capaz de produzir energia de forma rápida e eficiente, o que é extremamente benéfico para a atividade mais eficaz de tecidos que tem uma elevada demanda energética como o cérebro, os músculos e o intestino. Além de melhorar o nível de energia das células, deixando-as mais eficientes, também aumenta a resiliência contra estressores, modula o sistema imune (cujos tipos celulares também demandam muita energia) e possui efeitos anti inflamatórios.


Os estudos que existem acerca do uso da creatina para o intestino se voltam principalmente para a possibilidade desse suplemento exercer algum benefício no manejo das doenças inflamatórias intestinais, como a Doença de Crohn e a Colite Ulcerativa. Uma característica desse tipo de condição é a inflamação. Durante a resposta inflamatória, o epitélio do intestino sofre com a hipóxia, ou seja, a redução do suprimento de oxigênio, o que compromete o nível de energia celular e deixa as células mais vulneráveis a estressores como radicais livres e toxinas. Para lidar com essa situação, as células intestinais precisam sofrer alterações metabólicas para manterem-se ativas e garantirem a função de barreira do intestino. A creatina parece ser uma boa solução para dar conta do aumento do requerimento energético e também facilita a transferência de compostos importantes para a regeneração da mucosa da barreira.


Um fato observado por esses estudos é a íntima relação entre o status de energia da célula e a aderência das tight junctions que compõem a barreira intestinal. A suplementação de creatina parece exercer um papel direto na integridade estrutural e funcional dessas junções, mantendo a barreira íntegra e protegendo o organismo contra a endotoxemia.


Muito do que sabemos ainda se origina de estudos em animais, com os resultados em humanos ainda sendo consolidados. Por ser uma suplementação segura e eficaz, seu uso pode ser considerado a depender de cada caso, com imenso potencial de dar um suporte para a produção energética (e consequente eficiência) das células intestinais, além de exercer papel na integridade da barreira do intestino.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Wallimann, T., Hall, C., Colgan, S. P., & Glover, L. E. (2021). Creatine Supplementation for Patients with Inflammatory Bowel Diseases: A Scientific Rationale for a Clinical Trial. Nutrients, 13(5), 1429. doi: 10.3390/nu13051429