Entenda o que é estroboloma




O estrogênio é um dos principais hormônios sexuais que atuam no corpo da mulher, sendo produzido principalmente na região dos ovários, mas também pode ser sintetizado na região do córtex das glândulas adrenais e os níveis também podem ser aumentados pela conversão da testosterona, a partir da atuação da enzima aromatase (o que explica o fato de que os homens também possuem esse hormônio, apenas em um nível muito menor). Contudo, um dos principais reguladores dos níveis de estrogênio circulante são as bactérias que habitam o intestino. Vamos entender melhor como isso funciona ao compreendermos o que significa o termo “estroboloma”.


Chamamos de microbiota intestinal o conjunto de microrganismos que colonizam o trato gastrointestinal, e se considerarmos a totalidade de todos os genes presentes capazes de serem expressados, damos o nome de microbioma. O estroboloma pode ser entendido como uma parte do microbioma, pois refere-se aos genes ali presentes que, quando expressos, apresentam função de metabolizar o estrogênio. E o que significa essa metabolização?


O nosso fígado é responsável por realizar processos de detoxificação, conjugando substâncias potencialmente tóxicas para serem inativadas e mais facilmente excretadas pelas fezes ou urina, protegendo nosso organismo contra xenobióticos. O estrogênio circulante no sangue também passa por esse metabolismo no fígado, mas observa-se que apenas 10% acaba sendo efetivamente eliminado.


Tal fato se deve à existência de alguns microrganismos que são capazes de secretar enzimas chamadas β-glucuronidase, responsáveis por desconjugar o hormônio sexual feminino estrogênio, resultando na volta à sua forma ativa, que é capaz de circular livremente pela corrente sanguínea e se ligar aos receptores de estrogênio presentes em diferentes tipos celulares ao longo do corpo, exercendo suas diferentes funções biológicas. Os genes que produzem essas enzimas (gus e BG) estão presentes principalmente nas bactérias do gênero Firmicutes e Bacteroidetes.


O estrogênio é um hormônio predominantemente produzido no trato reprodutivo feminino, onde tem papel importante no desenvolvimento dessa região e na ocorrência da ovulação e ciclo menstrual de uma forma geral, mas atua também em regiões bem distantes do organismo, como nos ossos (aumentando a densidade mineral óssea), nos músculos (favorecendo o anabolismo), no cérebro (melhorando funções cognitivas e a sinalização de neurotransmissores como a serotonina), no sistema vascular, tecido adiposo e outros.


Adicionando a essas considerações o conceito de estroboloma, que implica no fato de que a microbiota intestinal constitui um importante ponto de regulação da homeostase de sua ação fisiológica, ao ser capaz de aumentar os níveis circulantes e livres desse hormônio, se tal microbiota entra em desequilíbrio, é correto pensar que todas as atuações do estrogênio também podem ficar alteradas devido à maiores ou menores níveis circulantes.


Condições que são consideradas “hormônio dependente” e que tem o tanto o seu desenvolvimento como o prognóstico piorado por conta da excessiva sinalização hormonal do estrogênio, como é o caso da endometriose, por exemplo, podem estar associadas à disfunções do eixo intestino - estrogênio, com presença aumentada de bactérias produtoras de β-glucuronidase. Esse tipo de desequilíbrio também parece ser um fator contribuinte para o surgimento e progressão de cânceres hormônio dependentes, como o de mama, endométrio e ovário.


Ao passo que o excesso de estrogênio pode ser um fator de risco para o início e continuidade de algumas doenças, existem situações em que um aumento dos níveis circulantes desse hormônio é considerado um fator de proteção, como na menopausa. Essa fase da vida da mulher é marcada pela redução dos hormônios sexuais femininos, especialmente a forma mais ativa do estrogênio - o estradiol - e esse declínio está na origem da maioria dos sintomas experienciados: os fogachos, maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de osteoporose, dificuldade em ganhar massa muscular, diminuição da libido, aumento de sintomas ansioso e depressivos, ganho de peso e maior risco para o desenvolvimento de obesidade e síndrome metabólica.


Dessa forma, uma modulação da microbiota favorecendo o crescimento de espécies produtoras de β-glucuronidase é uma janela de oportunidade para melhorar os níveis circulantes de estrogênio, assim como as suas atuações fisiológicas de caráter protetor sobre os sistemas muscular, ósseo, neural, vascular e também sobre o tecido adiposo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baker, J. M., Al-Nakkash, L., & Herbst-Kralovetz, M. M. (2017). Estrogen–gut microbiome axis: Physiological and clinical implications. Maturitas, 103, 45–53. doi:10.1016/j.maturitas.2017.06.025


Komorowski, A. S., & Pezo, R. C. (2019). Untapped “-omics”: the microbial metagenome, estrobolome, and their influence on the development of breast cancer and response to treatment. Breast Cancer Research and Treatment. doi:10.1007/s10549-019-05472-w