Dores crônicas nas articulações: por que devemos investigar a saúde do intestino?


A partir do momento que começou a ser dada uma maior atenção aos microrganismos que habitam o intestino, descobriu-se ali um potencial de alvo terapêutico para uma série de condições que afetam a saúde. Isso porque ao se perceber como a composição e função das bactérias intestinais poderia estar relacionada de forma negativa ou positiva a alguns sintomas e doenças, o intestino passou a ser um ponto obrigatório de análise para tratar os mais diversos órgãos do corpo.

A descoberta de “eixos” de comunicação bidirecional entre o intestino e outras regiões corporais, como o cérebro, músculos e fígado, foi deixando ainda mais claro que a microbiota intestinal faz muito mais do que simplesmente colonizar o intestino, participar do processo digestivo e exercer algumas outras funções ali. Um acúmulo de evidências vem mostrando, por exemplo, que as bactérias do microbioma estão associadas à origem de diferentes tipos de dores pelo corpo, e participam da resposta nociceptiva, ou seja, tem o potencial de aumentar ou diminuir a percepção de dor que nós temos. Nesse sentido, as descobertas continuaram e foi encontrada uma forte relação entre dores crônicas e as bactérias intestinais: pessoas que sofrem com esse tipo de condição costumam apresentar uma microbiota com disbiose, e assim que esta é restaurada, é possível perceber melhora das dores. Dessa forma, alterações na composição, função e, consequentemente, nos metabólitos produzidos por essas bactérias são fatores chaves nas respostas de dor e de inflamação que uma pessoa apresenta. No que diz respeito às dores articulares, o que a ciência nos mostra é que se há um quadro de disbiose instalado, as bactérias “ruins” liberam endotoxinas (como os lipopolissacarídeos - LPS) e como o intestino fica mais permeável nessa situação, elas conseguem atravessar a barreira intestinal, chegar até a corrente sanguínea e estimular as células do sistema imune que estão por todo o corpo a liberarem citocinas pró-inflamatórias. Esse quadro leva ao aumento da inflamação de forma sistêmica, mas também concentrada em várias partes do organismo, como as articulações, e certos tipos celulares imunes (como os macrófagos) parecem estar mais intimamente relacionados a essas respostas específicas. Além da própria inflamação em si, isso aumenta a intensidade e a percepção de dor nesses locais. Alguns estudos já conseguiram identificar, inclusive, uma relação bem próxima do aumento da abundância de determinadas espécies de bactérias, como as Streptococcus, com a exacerbação das dores articulares. Na direção contrária, o aumento de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta parece exercer efeitos positivos na modulação da inflamação ao regular células T e neutrófilos. Se, por acaso, você sofre com dores articulares crônicas, está na hora de olhar com mais atenção para a saúde do seu intestino: pode estar aí uma chave importante para o tratamento. Alterações alimentares, como o aumento do consumo de fibras, redução de açúcares simples, adoçantes e aditivos químicos em geral, além da possível suplementação com pre e probióticos podem ser estratégias interessantes na modulação intestinal que pode propiciar maior alívio das dores articulares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Boer, C. G., Radjabzadeh, D., Medina-Gomez, C., Garmaeva, S., Schiphof, D., Arp, P., … van Meurs, J. B. J. (2019). Intestinal microbiome composition and its relation to joint pain and inflammation. Nature Communications, 10(1). doi:10.1038/s41467-019-12873-4

Ma, Y., Liu, S., Shu, H., Crawford, J., Xing, Y., & Tao, F. (2020). Resveratrol alleviates temporomandibular joint inflammatory pain by recovering disturbed gut microbiota. Brain, Behavior, and Immunity. doi:10.1016/j.bbi.2020.01.016