As alterações pós-covid começam no seu intestino!


Depois de algum tempo de pandemia, tornou-se cada vez mais constante o aparecimento de casos de pessoas que sobreviveram à infecção aguda causada pelo SARS-CoV-2 mas que apresentavam persistência de alguns sintomas e surgimento de outros que não tinham sido experienciados durante o curso da doença. Fadiga; dificuldade para respirar; desordens mentais e cognitivas, incluindo depressão e ansiedade; dores de cabeça, no peito e nas articulações; mudanças no paladar e olfato; tosse crônica; queda de cabelo; insônia e sintomas cardíacos e gastrointestinais são exemplos de reclamações que passaram a ser comuns entre esses pacientes.


Na busca por tentar descobrir as causas desses quadros, algumas descobertas colocaram o intestino como um possível foco de origem dessas alterações. Primeiro, precisamos entender que o intestino se comunica com outros órgãos do corpo, afetando seu funcionamento e sendo afetado por eles. O pulmão é um exemplo. A existência de um eixo de comunicação bidirecional entre o intestino - microbiota - pulmão implica no fato de que metabólitos das bactérias intestinais, sejam eles tóxicos ou benéficos, podem chegar até os pulmões e predispor (ou prevenir) o desenvolvimento de condições adversas; da mesma forma, a inflamação e os processos patogênicos que acontecem na região pulmonar também podem afetar a microbiota, causando alterações na sua composição, como a perda de diversidade. Esse tipo de mudança, com a instalação de uma disbiose e o aumento do estado inflamatório sistêmico que acontece como consequência, por sua vez, comprometem a atuação do sistema imune, deixando o indivíduo mais vulnerável à progressões mais severas da doença e à persistência dos sintomas. E como sabemos, os pulmões estão entre os órgãos mais afetados durante os estágios da Covid-19.


Alguns estudos mostraram ainda a presença de excreção viral nas fezes de pacientes afetados pela Covid-19, mesmo depois da resolução dos sintomas. Esses achados sugerem que o próprio trato gastrointestinal também pode ser um local de replicação do vírus e servir como um reservatório para o seu material genético, sendo uma possível explicação para alterações no estado de saúde mesmo depois da infecção aguda. Esse é um fator que ainda pode piorar a disbiose, abrindo o caminho para as consequências no longo prazo, principalmente os sintomas gastrointestinais e neurológicos observados na condição conhecida como Síndrome Pós Covid


O que a ciência - e os casos clínicos de uma forma geral - tem mostrado, é que se compararmos a composição da microbiota de um indivíduo nos estágios iniciais da Covid-19 com a constituição desses microrganismos ao final da infecção, encontraremos uma série de alterações na composição e função do microbioma desses pacientes. Uma destas mudanças percebidas é a perda de diversidade e abundância de bactérias comensais benéficas, com um consequente aumento de patógenos oportunistas (como Streptococcus e Rothia), independentemente do uso de antibióticos.


Além disso, muitos dos sintomas mais comuns das alterações pós covid como, por exemplo, a fadiga, distúrbios do sono, dores articulares, diarréia e perturbações do estado mental como ansiedade e depressão são condições associadas à presença de disbiose intestinal.


O que todas essas informações reforçam é a importância do cuidado atento com a saúde intestinal. Além de uma microbiota saudável representar um suporte importante para o sistema imunológico, o que pode evitar a infecção inicial pelo SARS-CoV-2, caso esta aconteça, ter uma atenção para impedir o desenvolvimento/progressão de uma disbiose, pode atuar como um fator de proteção contra a persistência dos sintomas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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