Por que a prática da meditação pode ajudar quem tem Síndrome do Intestino Irritável


A Síndrome do intestino Irritável (SII) é uma condição crônica que afeta principalmente as mulheres. Os sintomas gastrointestinais de constipação e/ou diarreia, inchaço e os desconfortos/dores abdominais experienciados fazem com que essa síndrome tenha um impacto considerável na redução da qualidade de vida desses pacientes. Existem alguns critérios que devem ser levados em conta na hora de fazer o diagnóstico da SII, que deve ser feito por um profissional capacitado (gastroenterologista), mas a ideia aqui não é falar dessa fase de descoberta da condição, mas sim do seu tratamento.


Os medicamentos para SII são mais para alívio de sintomas do que para tratamento, o tratamento costuma ser com dieta e modulação da microbiota intestinal .. A existência do eixo intestino - cérebro suporta a forte influência que os fatores psicológicos têm na sintomatologia dessa condição, e costumam ser gatilhos importantes das crises. A presença de ansiedade e depressão de forma concomitante costumam amplificar os sintomas e quando o diagnóstico da SII é feito, o aumento do afeto negativo tem efeito potencializador nos desconfortos experienciados. Com isso, intervenções que fazem manejo das interações corpo-mente têm sido consideradas promissoras.


Tratamentos corpo-mente são definidos como intervenções que utilizam diferentes técnicas para facilitar a capacidade da mente de afetar o funcionamento físico do corpo. Tal facilidade é adquirida através do fortalecimento de regiões cerebrais e habilidades mentais que permitem uma maior consciência e separação das emoções e atitudes. Entre as técnicas utilizadas está a meditação.


A meditação é uma prática milenar, que diferentemente do que se pensa, não é um simples sentar, fechar os olhos e parar de pensar. O fluxo de pensamento não pára, o que muda é nossa capacidade de percebê-los e observá-los, sem julgar. Para desenvolver tal habilidade é preciso prática, e existem várias vertentes de meditação possíveis. O tipo mais estudado pela literatura científica - inclusive nos estudos que buscam novas possibilidades de manejo para a SII - é o mindfulness. Consiste em adotar uma postura de presença e não julgamento, com total atenção no momento presente.


Ao voltar a atenção aos pensamentos, sentimentos e sensações físicas, na ausência do julgamento e da preocupação com o futuro, é possível reduzir as ruminações, ansiedades e componentes de afeto negativo que costumam ser gatilhos para as crises de SII.


O estresse e a ansiedade desregulam a motilidade intestinal, o que pode aumentar a sensação de urgência para defecar, ou constipação com dificuldade para evacuar. As pessoas que possuem essa síndrome usualmente apresentam uma maior percepção do estresse e da hipervigilância (que está muito associada ao sentimento de ansiedade). A prática da meditação é considerada uma ferramenta para o desenvolvimento da capacidade de percepção e regulação de afetos negativos, representando uma forma de modular a fisiologia intestinal nesses casos.


Outro ganho possível a partir da prática é a maior aceitação de situações estressoras. Considerando que a SII é uma condição crônica, sem um tratamento curativo, aumentar o sentimento de aceitação frente ao desconforto pode auxiliar a lidar melhor com os sintomas, sem elicitar sentimentos negativos que acabam piorando os quadros.


Atualmente, o desenho das evidências nos permite concluir que a meditação - e outros tratamentos da modalidade mente - corpo - devem ser usados como medidas complementares a outras estratégias. Considerando o impacto positivo na SII, a falta de efeitos colaterais e os benefícios colhidos inclusive em outros quesitos da personalidade e da rotina, a inclusão de práticas meditativas parece ser uma estratégia de enorme valia para ser parte da redução dos sintomas da SII. Não se preocupe em meditar por horas ou vários minutos. Comece aos poucos, e vá desenvolvendo a prática. O efeito positivo faz com que aumentar o tempo das meditações fique natural e prazeroso, e é assim que o hábito se fortalece e você ganha um aliado importante para lidar com a SII.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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