Longevidade: existe um padrão alimentar ideal para viver mais?



O envelhecimento é um processo de deterioração fisiológica gradual que todos os seres vivos experimentam com o tempo. É um processo heterogêneo e heterocrônico. Também considerado um heteroprocesso genético, o envelhecimento pode ocorrer em taxas diferentes em organismos diferentes, o que torna o envelhecer variável. A assincronia pela qual células e tecidos dentro de um único organismo envelhecem destaca-se a natureza heterocrônica do envelhecimento. O tempo de vida dos humanos depende principalmente da genética, fatores ambientais e de estilo de vida, que por sua vez afetam nosso risco de doença e sobrevivência. A influência genética em humanos foi estimada em cerca de 20% a 25%.


A nível biológico, o envelhecimento é caracterizado pelo acúmulo de danos moleculares e celulares que levam a danos estruturais e funcionais em células e tecidos, que resultam em perda da homeostase mitocondrial, comunicação intercelular prejudicada, diminuição da capacidade regenerativa e senescência. A interação dinâmica entre uma vida e seu ambiente define a taxa e a proporção de envelhecimento. A capacidade do organismo de contornar o estresse e responder a acontecimentos ambientais externos são diminuídos em indivíduos idosos quando comparados aos mais jovens.


O envelhecimento saudável refere-se à proteção de declínios moleculares e celulares durante a vida. Não surpreendentemente, o envelhecimento saudável associa-se ao aumento da longevidade. Essa alegação é substanciada pelo fato de que a genética aliada à dietética e/ou intervenções farmacológicas podem promover homeostase celular, resistência ao estresse e proteção contra doenças relacionadas ao envelhecimento.


A descoberta de que o envelhecimento pode ser amenizado por meio de ações dietéticas abriu a perspectiva de uma medicina preventiva de amplo espectro para doenças relacionadas ao envelhecimento. Modificações dietéticas, incluindo restrição calórica, intervalos de jejum e até mesmo limitar o tempo em que os alimentos são consumidos podem ter impacto na longevidade. Ainda, as modificações dietéticas são intervenções potenciais para retardar, prevenir ou tratar fatores relacionados ao envelhecimento, como as doenças crônicas. A restrição calórica (RC) perdurou por mais de 75 anos como método robusto para aumentar a longevidade e retardar o envelhecimento e todas as doenças associadas. A restrição alimentar sem que cause desnutrição resulta em alterações fisiológicas, metabólicas e moleculares, incluindo menor rigidez miocárdica associada à idade, disfunções celulares e regulação celular imunológicas.


O que realmente se qualifica como dieta macronutricionalmente saudável que se estende ao sucesso contra o envelhecimento está na composição do prato. Aumentar a ingestão de proteína animal em 10% (ou 5g de proteína) enquanto diminui-se a ingestão de carboidratos em 10% (ou 20g de carboidratos) correlaciona-se com aumento de 5% na incidência de doenças cardiovasculares. Isso se explica pelo fato de que proteína animal contém, em sua composição natural, a gordura saturada, responsável pela resistência à insulina, formação de ateroma, diabetes e doenças cardiovasculares.


Por outro lado, indubitavelmente, a composição proteica das refeições diárias pode promover longevidade, proteção contra danos celulares, fortalecimento do sistema imunológico e reparos teciduais, quando adequada às necessidades individuais e contendo variedades de proteínas vegetais, ricas em fibras, compostos bioativos e nutrientes essenciais à saúde. Os alimentos de origem vegetal, com exceção dos feijões, contém menos proteínas do que as fontes animais, mas, mesmo assim, em teor maior do que o organismo humano necessita. Além disso, as fontes mais proteicas de origem vegetal contém quantidades adequadas de fibras e diversos micronutrientes, com baixo teor de gordura. A Dietary Reference Intake (DRI) sugere que a ingestão total da dieta referente às necessidades proteicas seja de 10 a 35% do valor calórico total, considerando indivíduos de ambos os gêneros.


Os maus hábitos nutricionais se acumulam e contribuem para a diminuição na aptidão metabólica e função fisiológica associada ao envelhecimento. Padrões dietéticos com consumo elevado de fontes vegetais, como observado no padrão dietético vegano, são associados ao aumento da longevidade, redução de biomarcadores inflamatórios e oxidativos, fortalecimento imune e saúde intestinal. As dietas veganas são caracterizadas pela exclusão não somente de alimentos de origem animal, com teores elevados de gorduras saturadas, mas possui um padrão de consumo elevado de frutas, verduras, vegetais, leguminosas, grãos integrais, nozes e sementes. Isso caracteriza um padrão protetor contra muitas doenças inflamatórias como a doença cardíaca, diabetes mellitus tipo 2, doenças inflamatórias intestinais e alguns tipos de câncer. Uma série de mecanismos são responsáveis por estes efeitos observados no padrão de consumo vegano, o que inclui proteção do organismo à ação de radicais livres, o que influencia diretamente no retardo do processo de envelhecimento.


Diversos mecanismos nutricionais estão, portanto, envolvidos no processo de envelhecimento. Vale ressaltar desregulações celulares, aumento de energia ingerida e vias de crescimento incluindo AMPK (Proteína quinase ativada por AMP), SIRT1, mTOR, insulina e IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1), autofagia prejudicada, modificações epigenéticas, inflamação crônica de baixo grau e estresse oxidativo estão intimamente ligados ao envelhecimento precoce e suas consequências. A restrição calórica, dietas vegetarianas, veganas e, mais amplamente, o planejamento dietético individual com ingestão de frutas, verduras, legumes e diminuição de ingestão de gorduras totais, açúcares e refinados pode otimizar e proteger processos fisiológicos e celulares importantes de sinalização, transcrição e regulação.




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