Glutamina além do intestino!


O que é glutamina?

A glutamina é um aminoácido importante para diversos processos no organismo, como metabolismo de energia, e síntese de nucleotídeos, glutationa e neurotransmissores. Além disso, contribui para a detoxificação da amônia, balanço ácido-básico e funcionamento do sistema imune.


É conhecida por ser condicionalmente essencial, ou seja, em condições normais de saúde as necessidades internas do aminoácido são atingidas pela produção endógena no músculo. Entretanto, em estados de catabolismo a produção endógena passa a não ser suficiente, necessitando de fontes exógenas como alimentação e suplementação. Assim, em condições catabólicas como trauma, câncer e sepse, o aminoácido é mais requisitado pelas células do intestino, dos rins e do sistema imune, excedendo a produção do organismo, o que leva à necessidade de suplementação. Nos alimentos, a glutamina é facilmente encontrada em fontes de proteína animal, como carnes, peixe, ovo e leite e vegetais como arroz, tofu e milho.


Apesar de ser altamente conhecida por suas funções no intestino, a glutamina possui diversos benefícios para outros sistemas e situações, como veremos a seguir.


Glutamina e Intestino

O intestino compete pela glutamina com outros tecidos, utilizando 30% do aminoácido total do organismo. As principais funções da glutamina no intestino são produção de energia para divisão celular, aumento da síntese proteica nos enterócitos, regulação da expressão de proteínas das tight junctions, regulação da imunidade intestinal e inibição da apoptose induzida por estresse oxidativo, todos sendo fatores essenciais para a homeostase do trato e manutenção da barreira intestinal. Além disso, o aminoácido é precursor da síntese de glutationa (importante molécula antioxidante), do glutamato, da prolina, da arginina e de nucleotídeos.


Glutamina e Sistema Imune

A glutamina também possui papel essencial no sistema imune e no enfrentamento de doenças e infecções. Durante processos infecciosos, a demanda das células imunes por glutamina está aumentada, além do que a expressão de diversos genes do sistema depende da disponibilidade de glutamina. Além disso, o aminoácido serve de substrato energético para leucócitos, participa da proliferação celular, reparação do tecido e reconhecimento do patógeno. Essa necessidade aumentada e papeis essenciais no combate à moléstia, juntamente com a maior demanda de outros tecidos, pode piorar quadros de doenças e infecções caso não haja o aporte exógeno adequado do aminoácido.


Estudos mostram que uma baixa concentração de glutamina no plasma pode contribuir para o comprometimento da função imune em diversas condições clínicas, reduzindo a proliferação de linfócitos, dificultando a expressão de proteínas de ativação e a produção de citocinas, além de induzir apoptose de células importantes.


Outro grupo que pode se beneficiar da suplementação são as vítimas de queimaduras, pois são mais susceptíveis a infecções. O potencial de imunomodulação da glutamina pode contribuir principalmente com uma melhor proliferação das células de defesa.


Ao contrário dos indivíduos catabólicos ou doentes, em indivíduos saudáveis em situações normais, a suplementação do aminoácido tende a não aumentar a eficácia do sistema imune ou prevenir doenças.


Glutamina na Terapia Intensiva

A glutamina é um nutriente essencial para a resposta do organismo ao estresse e lesão, exercendo efeitos protetores de células e tecidos contra lesões, atenuação da inflamação e preservação do metabolismo. Assim, o aminoácido pode ser usado em indivíduos em Unidades de Terapia Intensiva como forma de prevenir e tratar diversas condições e lesões, sendo recomendado principalmente para pacientes em terapia parenteral.


Em pacientes críticos, o metabolismo da glutamina está aumentado, e grandes quantidades do aminoácido são liberadas do tecido muscular em resposta ao estresse, resultando em níveis depletados e maior mortalidade. Assim, a administração enteral ou intravenosa do nutriente pode reduzir mortalidade, morbidade infecciosa, ocorrências de pneumonia e infecção urinária, além do tempo de permanência em UTI.


Esporte

Em relação à suplementação de glutamina no esporte, as evidências são contraditórias e não existe um consenso em relação à melhora do desempenho dos atletas. Entretanto, sugere-se que o aminoácido possa ser um aliado ao sistema imune devido à imunossupressão após o exercício físico.

Referências:

Abrahão, S. A. B., & Machado, E. C. (2014). Suplementação De Glutamina No Tratamento De Pacientes Com Câncer: Uma Revisão Bibliográfica. Estudos Goiânia, 41(2), 215–222.

Cruzat, V. et al. (2018). Glutamine: Metabolism and immune function, supplementation and clinical translation. Nutrients, 10(11), 1–31. https://doi.org/10.3390/nu10111564

Kim, M. H., & Kim, H. (2017). The roles of glutamine in the intestine and its implication in intestinal diseases. International Journal of Molecular Sciences, 18(5). https://doi.org/10.3390/ijms18051051

Kim, M., & Wischmeyer, P. E. (2013). Glutamine. World Rev Nutr Diet, 105, 90–96.

Pereira, I. G., & Ferraz, I. A. R. (2017). Suplementação De Glutamina No. REBRASF - Revista Brasileira de Saúde Funcional, 1(1), 46–55.

Schöler, C. M., & Krause, M. (2017). Metabolismo Da Glutamina E Exercício Físico: Aspectos Gerais E Perspectivas. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 25(2), 166–175. https://doi.org/10.31501/rbcm.v25i2.6840

Sousa, S. et al. (2015). O papel da arginina e glutamina na imunomodulação em pacientes queimados – revisão de literatura. Rev. Bras. Queimaduras, 14(4), 295–299. http://rbqueimaduras.org.br/details/281/pt-BR/o-papel-da-arginina-e-glutamina-na-imunomodulacao-em-pacientes-queimados---revisao-de-literatura#:~:text=Dentro do suporte nutricional%2C a,diminuir a mortalidade dos pacientes.

Wang, B. et al. (2015). Glutamine and intestinal barrier function. Amino Acids, 47(10), 2143–2154. https://doi.org/10.1007/s00726-014-1773-4